Banheiro proibido para babás?

Os tempos estão mudando, as gerações modificando, a tecnologia evoluindo, mas e a capacidade empresarial de adaptação?

Saiu no “O Globo” ontem (26/05/2016) a notícia de que um clube na Zona Sul do Rio de Janeiro estava colocando placas proibindo as babás de usarem os banheiros destinados aos adultos, assim elas só poderiam utilizar os das crianças.

Segundo a notícia, o aviso veio motivado pelo fato de algumas babás estarem usando o banheiro de adultos para limpar as crianças, com isso, teria sido convidadas a se retirar do mesmo. Não quero entrar na polêmica da discriminação em si. Foi discriminação e ponto, não há o que discutir. Ainda mais quando se lê os relatos contidos na matéria, como “pode, desde que não haja exagero” e “Não tenho preconceito, mas as babás não necessariamente são pessoas extremamente educadas.”. Tem vários quês de preconceito sim, mas isso todo mundo vê e é fácil de dizer, apontar o dedo ao absurdo e ficar indignado. Não quero fazer aqui um texto político/reacionário, quero dar uma outra visão aqui, uma visão administrativa.

Vejo aqui uma grande miopia de gestão nesse clube, sinceramente. Não apenas pelo preconceito da placa. Por trás do preconceito, eu consigo, bem longe e fazendo uma baita força, enxergar a motivação do dono desse clube ou da pessoa que escreveu essa placa e colocou lá, claro que consigo. Vou escrever em letras garrafais para que ninguém me acuse de nada: NÃO CONCORDO DE JEITO NENHUM COM ESSA P**RA E ACHO UM P*TA PRECONCEITO SIM.  Mas, analisando friamente, não é que ele não queria as babás lá… ele não queria bagunça das crianças nos banheiro de adultos.

O que dá pra entender pelos relatos é que o banheiro é um vestiário e que algumas babás estavam levando as crianças, provavelmente sujas e suadas pra caramba, depois de ter corrido, brincado, pulado, se jogado na areia, derramado achocolatado e suco nas roupas e comido todo tipo de coisa suculenta com a mão e limpado no shorts (não sei vocês, mas eu era assim quando era criança) e limpando ali mesmo, aproveitando enquanto tinham que ir de fato se aliviar. Estavam aproveitando a vontade de fazer seu xixizinho pra levar o moleque pra tirar os 4kg de sujeira que estavam em cima dele. Em uma família que tenha babá, num clube onde existem regras específicas para babás, duvido muito que os pais que façam frequentemente esse serviço burocrático e dificultoso que entra em nossas vidas quando vem uma criança. Você faz o serviço, afinal aquele ser minúsculo é propriedade sua e você tem que cuidar e dar amor, mas se você pode em algum momento terceirizar, você vai. Ainda mais quando se está num clube se divertindo.

meninolamaAí alguém, provavelmente, reclamou da bagunça que aquele pequeno filhote de ser humano embebido em moléculas de poeira estava fazendo (imagem acima meramente ilustrativa). Foi lá na administração e falou absurdos e tals. Mas, claramente na cabeça do cidadão (ou cidadã), a culpa não é do pequeno, mas sim da babá que estava deixando. Aí vem a míope gestão e faz o que? Proíbe as babás de entrar… Cara… que cabeça foi essa que pensou nisso???

No intuito da regra parece ser “beleza, as mães e os pais desse clube não fazem esse trabalho sujo mesmo… vamos proibir as babás que acabou a bagunça no banheiro”. Eu tenho fé na humanidade, realmente tenho essa fé e não acho que a regra tenha sido feito para uma segregação social e para as babás não poderem usar o banheiro dos patrões, mas acho que, claramente, as pessoas preconceituosas que se “beneficiaram” com essa regra, ficaram bastante felizes.

Na época de textões e de denúncias via rede sociais, você, meu amigo empreendedor ou empresário, não pode dar o mole de cometer gafes tão chocantes assim. Lembram do caso Quintandinha, na Vila Madalena em SP? Umas meninas fizeram uma acusação gigante de assédio que depois se revelou não ser bem isso. Não quero entrar no mérito de se as imagens foram editadas e de quem tem razão. Longe de mim. Mas quando se olha a resposta dos caras do bar no inicio do caso, percebe-se a insanidade gerencial da parada. Praticamente chamaram as meninas de loucas. E cara, você tem clientes… e uma das coisas que você mais tem que fazer é RELACIONAMENTO com cliente. E não falo aqui de um SAC 0800 pra ouvir reclamações que virarão estatísticas em um CRM, não é isso. Falo relacionamento de VERDADE! (Me cobrem um post sobre isso) Eu nunca fui no Quitandinha, mas não iria agora. Pô, se eu tiver um problema, independente de qual for, sei lá como eles vão resolver.

Voltando ao clube da notícia… esse clube funciona todo dia e, pelo que eu entendi, os sócios pagam e as babás podem ir lá independente dos sócios estarem juntos. É claro que em diversos fins de tardes durante a semana as crianças vão com as babás sem os sócios “verdadeiros” ali. Daí bate aquela vontade de ir no banheiro e uma babá olha pra outra e diz: “olha esse pestinha aí um instantinho, que eu vou ali tirar uma água do joelho!”… Chega no banheiro e tem uma placa “Babá não entra” e ela é obrigada a ir no banheiro das crianças, com os sanitários mais baixos e tudo mais. Vai dizer que não é constrangedor? Se fosse em um restaurante, você voltaria alguma nesse restaurante?

E aí, meu caro, vem a pergunta fundamental e interessantíssima no caso:

quem é seu verdadeiro cliente?

Será que a gestão desse clube parou para pensar no nível de influência que uma babá pode ter na família? Uma babá se sentiu constrangida na situação e denunciou. Já parou para pensar que essa babá pode exercer um papel na família ao ponto de tirar a família do clube. Babá mexe com a parte mais importante da família: a criança, o filho. Tenho na minha família uma uma escola (desde os pestinhas do maternal até a galera da adolescência) e meu amigo, os pais se transformam em verdadeiros bichos quando se trata de algo que aconteceu com seus filhos. Existem babás na escola que foram babás dos PAIS… e agora estão sendo de seus filhos. Tem noção do quanto da família já essa pessoa?

Quem é o cliente numa relação dessas? O filho? Os pais? Se uma babá com esse cacife disser que não volta mais na escola, por algum motivo de constrangimento ou coisa parecida, você acha que os pais vão mudar o que? A babá? O filho? A escola? Qual o mais fácil de rodar na relação aí?

Coloca essa situação no clube. Uma babá diz que se sente constrangida e não gostaria de voltar no clube… qual o que vai ser mudado? Vamos tirar a questão do preconceito e da segregação social dessa questão. A situação de uma escola, por exemplo. Você tem que agradar a criança ou o pai? Quem é seu cliente? A criança influencia ao ponto de conseguir fazer com que você perca aquele aluno ou se você mostrar para o pai o fundamento de tudo aquilo ele vai entender e manter a criança ali, mesmo contra a vontade?

Existem várias outras situações, como casais chegando em uma loja de moda masculina… Quem tem que ser agradado? Uma família indo comprar um carro pro filho? Eu conheço e posso falar bem do setor escolar, mas a reflexão é justamente essa… até onde você está agradando seu real cliente?

A adaptação às novas situações que estão surgindo tem que vir rapidamente e do jeito correto, sob o risco de um depoimento no Facebook acabar com o seu negócio. E, meu velho, cada vez mais algumas situações novas estão mexendo em pontos delicados e se torna difícil “agir naturalmente”, porque, na verdade, os empresários não sabem direito ainda o que é o naturalmente. No caso do casal chegando à loja, se for um casal homoafetivo, alguns vendedores, provavelmente, agirão de uma maneira estranha, surpresos.
Não falo do preconceito, mas falo daquela surpresa inicial que muitos tem ao se deparar. Não se olha ainda com tanta naturalidade e, meu amigo, quanto tempo mais passar e você não começar a agir com naturalidade, mais clientes você perde. Pode ter certeza. Várias empresas já se ligaram que a naturalidade e até mesmo a defesa de um ponto, às vezes meio polêmico, é muito bom para o marketing dos negócios, como a Netflix nessa imagem.

FB_IMG_1464278535635

Não queria deixar essa notícia comentada apenas amarrada na questão do preconceito, que ainda é existente na sociedade e bastante forte. Sinto isso de vez em quando, sou um Nordestino vivendo no eixo Rio-SP e ouço de vez em quando diversas coisas que soam preconceituosas. Algumas vezes nota-se que de fato é preconceito, algumas nota-se que foi uma falta de cuidado na palavra e que, na verdade, a pessoa não discriminou, só usou o vocabulário “coloquial” para a situação. Mas, meu caro, acontecendo numa mesa de bar entre amigos é uma coisa, outra coisa completamente diferente é quando eu digo em uma loja que sou Cearense e o vendedor pergunta se eu conheço a “Feira dos Paraíbas” (Feira de Tradições Nordestinas no RJ), deu pra notar a pequena diferença?

Por isso digo, até onde a sua mentalidade e da sua empresa toda está evoluindo?

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Captcha Captcha Reload